E quando ser bom deixar de ser suficiente?

E quando ser bom deixar de ser suficiente?

Há uma ideia sobre Inteligência Artificial que me anda a incomodar.
Talvez a primeira grande vítima económica da IA não seja o mau. Talvez seja o bom.
O bom texto. A boa apresentação. A boa análise. A boa imagem. A resposta competente.
Tudo aquilo que durante anos exigiu conhecimento, experiência e tempo está a tornar-se mais rápido, acessível e barato.
E isto cria um paradoxo: a IA pode aumentar brutalmente a qualidade média e, ao mesmo tempo, diminuir o valor económico de ser apenas bom.
Quando todos conseguirem produzir resultados competentes, a escassez muda de sítio.
Talvez passe a estar menos na execução e mais no julgamento. 

Menos na capacidade de responder e mais na capacidade de fazer a pergunta certa. 

Menos na perfeição e mais na identidade. 

Menos em parecer especialista e mais em conseguir provar reputação. 

Menos na quantidade de informação e mais em sabermos em quem acreditar.

 

Foi a partir desta inquietação que comecei a desenvolver o conceito de Human Premium.
E atenção: não é mais uma defesa romântica da superioridade humana. Pelo contrário.
Ser humano, por si só, não é uma vantagem competitiva.
Uma máquina que resolve melhor, mais depressa e mais barato deve substituir muito do que hoje fazemos. 

A questão interessante começa depois: Se retirarmos o humano, quanto valor desaparece?

E esta pergunta leva a outra, talvez ainda mais incómoda para as empresas: Quando todos os nossos concorrentes tiverem acesso à mesma inteligência, porque raio hão de escolher-nos a nós?
Qualidade? Inovação? Excelência? Cliente no centro?
Não chega. Todos podem dizer isso.

 

Talvez a verdadeira vantagem esteja naquilo que não se compra juntamente com uma licença de IA: reputação, experiência, julgamento, gosto, relações, comunidade, cultura, responsabilidade, confiança.
E talvez tenhamos também de inverter a pergunta que domina hoje tantas empresas. Em vez de perguntarmos apenas “O que podemos automatizar?”, começar a perguntar: “O que seria estúpido automatizar?”

 

É sobre estas contradições e algumas bastante mais desconfortáveis, que escrevi o white paper The Human Premium.

Não é uma previsão sobre aquilo que a IA fará.
É uma provocação sobre aquilo que nós teremos de continuar a conseguir fazer quando ela o fizer também.
Porque talvez esta seja a verdadeira mudança: A Inteligência Artificial não vai provar que os humanos são especiais. Vai obrigar-nos a prová-lo.

José Borralho – Chairman Product of the Year Portugal